Conto
Quando nada mais importa, descobrimos o valor que damos a cada coisa, o sentido exato daquela caixa de música ou da lembrança mais remota da infância, que teima em voltar cada vez mais nítida.
São poucas as histórias que posso contar, pois em toda minha vida até hoje fui aquela pessoa que não enxergavam um alguém, fui a mais fútil das idéias, a mais fútil das criações.
Na escola, o mais inteligente, fora dela, o mais burro e inocente, o mais criticado o mais... Rejeitado.
Na minha casa foram várias as esperanças de ser uma pessoa na qual a sociedade chamava de normal, mas eu sinceramente nunca achei que fosse assim. Um típico “nerd”, que só encontrara refúgio nos seus sonhos, nas imagens gravadas na mente, onde nada obedece ao possível.
No meu quarto um mundo, e ao mesmo tempo um vazio, nada mais importava quando eu estava nele, quer dizer, apenas os jogos e recordes que tinha de bater.
Ali também guardava uma caixinha, eu prefiro chamar de um pequeno mundo onde tento alcançar ao possível meu principal objetivo, a realidade.
Lá eu guardava fotografias e algumas cartas que costumava escrever ao invisível, fotos de lugares onde desejara muito visitar, lugares onde o sol repousa e a lua toma seu lugar, agradando ao coração apaixonado.
Coração apaixonado... Sim, eu já tive um, mas não me recordo muito bem, ainda era uma criança e não sabia o que era amar, e mesmo ainda não sabendo posso dizer que já encontrei um, pelo menos é ela que faz meu coração bater mais forte a cada pausa da escola, a cada jogar seu de cabelo, e infelizmente a cada atravessar seu pelos corredores para falar com os atletas.
A rotina sempre foi a mesma, abrir o armário e retirar dali os meus desafios diários, o meu fiel companheiro, de onde tiro as minhas fiéis teorias, meu livro de física.
Nunca fui lá a favor de trabalhos em grupo, até por que nunca era chamado para esse tipo de coisa, e nunca entendi para que os professores o colocavam, afinal, a avaliação sempre fora individual... É... professores são como alienígenas, vem para absorver ao máximo suas expectativas e dados guardados bem lá no fundo da sua mente, de onde até mesmo você tem preguiça de buscá-los de tão longínquo o caminho, a sua capacidade de aprender.
Na hora do lanche, como esperado, sempre sentava sozinho, a não ser o dia em que a faxineira da escola resolveu ter um ataque e desabafar com qualquer um que visse pela frente, acho que esse foi o único dia que comi com alguém do meu lado.
Não me recordo de ter reclamado com ninguém, mas cá pra nós, a merenda da escola nunca foi aquela de se querer comer todos os dias, comia mesmo por falta de opção, as vezes me pergunto se as merendeiras não fazem parte daquelas organizações super secretas que tentam acabar com a raça de nós, inocentes alunos do colegial, por que sinceramente o que eles botam naquela comida? Veneno?
Na escola inteirinha conhecia apenas três pessoas: o André, Carlos e o MMJ (na verdade seu nome era Ícaro, mas vira esse nome na TV e a partir daí quis ser conhecido como o “MMJ”), éramos todos amigos, mas não nos falávamos muito na escola, preferíamos assim, nada pessoal.
Quando saio da escola é como se deixasse o meu laboratório, minhas fontes de pesquisa, como se lá eu soubesse exatamente como funciona o comportamento humano, sinto como se eu deixasse minhas lâminas e tubos de ensaio para novos experimentos, é realmente estranho.
Ao chegar em casa, nada de incomum, as mesmas coisas de todos os dias, entrar no meu quarto e torcer para que nada me faça sair dali, mas nunca me restam escolhas, a não ser atender ao chamado da minha mãe para o jantar.
Voltar para a cama e dormir não é lá um dos meus programas favoritos, mas fazer o que? Sou aquela pessoa que precisa mesmo de sonhar.
By: Maria Luiza